Século XXI pode viver nova Guerra Fria
Termos que por décadas ocuparam um papel central nas relações internacionais voltaram às manchetes dos jornais depois de quase 20 anos. “Equilíbrio de poder”, “corrida armamentista” e “voltar mísseis para a Europa” pareciam expressões relegadas aos livros e que só eram ouvidas em aulas de história. Mas as gerações mais novas estão ouvindo, pela primeira vez, as palavras que costumavam dar calafrios em seus pais e avós - e escutando-as, em mais um déjà-vu pouco agradável, em russo. Nas últimas semanas, o mundo tem assistido a reações de Moscou às quais, desde a Guerra Fria, tinha se desacostumado.O último capítulo ocorreu quando a Rússia realizou, há dez dias, testes de novas armas, anunciando ser capaz de superar um sistema antimíssil planejado pelos EUA para ser instalado na Europa Central. O teste ocorreu na semana em que o Reino Unido exigiu a extradição de um ex-agente da KGB, e num contexto de crises bilaterais com Polônia, Lituânia, Estônia, Ucrânia e com a União Européia.Para Angelo Segrillo, especialista em Rússia e Eurásia da USP, há um trio de fatores principais para a mudança de postura russa, retratada na maior agressividade dos discursos do presidente Vladimir Putin: “Três fatores são importantes para entender a posição cada vez mais assertiva, ou agressiva, da Rússia. Primeiro, o fim da crise econômica da última década e a nova prosperidade do início dos anos 2000 deram uma maior confiança ao governo. O segundo fator tem a ver com uma área de insegurança de Putin. De todas as áreas da política externa, seu ponto fraco foram os insucessos em manter a hegemonia russa nas antigas repúblicas da URSS. O terceiro fator foi o 11 de Setembro. A postura unilateralista dos EUA a partir dali serviu como um estopim e uma desculpa para que Moscou também começasse a adotar atitudes unilaterais no que considera sua própria esfera de influência”.