sexta-feira, 1 de junho de 2007

Brasilienses acreditam mais no jogo do bicho do que no Congresso


Diante dos escândalos de corrupção que vieram à tona nos últimos anos envolvendo empresários, funcionários de órgãos do governo e autoridades do poder público, uma pesquisa da Universidade de Brasília (UnB) revela que 88,4% da população não confia nos políticos. O estudo, realizado em abril deste ano na capital federal, mostra que a classe política é mais desacreditada do que, por exemplo, o jogo do bicho. Dos 1.283 entrevistados, 22,7% confiam no jogo ilegal, enquanto apenas 19,9% têm confiança no Congresso. Como se não bastasse isso, a grande maioria das pessoas considera os políticos mentirosos, picaretas ou criminosos. Menos de 3% acreditam na integridade de seus representantes. As perguntas da sondagem foram feitas em Brasília com homens e mulheres de todas as idades, de diferentes níveis de escolaridades, rendas e ocupações. O estudo orientado pelo coordenador de graduação do Instituto de Ciência Política da UnB, Ricardo Caldas, foi baseado em 20 perguntas sobre o sistema político brasileiro, órgãos governamentais, profissões, entre outros assuntos. “O levantamento demonstra a descrença da população em relação às instituições políticas”, resume Caldas.A crença da população em relação à política realmente parece estar abalada. Apesar de 70,6% acreditarem na existência da democracia no país, 74,7% das pessoas responderam que a classe política não representa o povo. As razões alegadas foram corrupção (28,04%), falta de compromisso (23,78%), defesa de interesses próprios (19,36%), as deficiências do sistema político-eleitoral (11,28%) e a falta de ideologia ou valores (8,42%).O estudo também mostra que o conjunto de idéias de cada partido não conta muito na hora do voto: 65,9% dos entrevistados falaram que a escolha dos seus candidatos é baseada na pessoa, enquanto 25,6% disseram que votam pelo grupo político. Já em relação às características que melhor descrevem os políticos em geral, a população não perdoou: 76% os consideram mentirosos, picaretas e criminosos. 7,4% dos participantes do estudo acreditam que os políticos são experientes, 3,1% acham que eles são educados e apenas 2,8% acreditam que os políticos sejam éticos e honestos.A Justiça brasileira também não escapa da desconfiança da população: 50,5% não confiam no Poder Judiciário, enquanto 58,5% acreditam nas Forças Armadas. Quanto às profissões citadas na pesquisa – médico, engenheiro, promotor, professor, bombeiro, juiz e jornalista – as mais credíveis são bombeiro (32,6%), professor (26,1%) e médico (20,9%). Para os entrevistados, as duas ocupações menos confiáveis são promotor (0,3%) e jornalista (2,6%). O governo federal também não foi poupado pelos entrevistados na sondagem. Cerca de 60% das pessoas admitiram não confiar na atuação do Executivo.Para finalizar, os pesquisadores perguntaram aos participantes sobre o sistema eleitoral do país. A maioria esmagadora (90,3%) acredita que o Brasil precisa de uma reforma política, sendo que 52,5% são contra o financiamento público de campanhas. O voto obrigatório também é criticado pelos entrevistados: 68,8% deles são a favor do voto facultativo. Porém, 23,9% não escolheriam os seus representantes caso fosse opcional. Ricardo Caldas, que também é professor de Teoria da Corrupção na UnB, afirma que o sistema político brasileiro chegou ao limite. Segundo ele, como o formato da política é tolerante à corrupção, a tendência é aumentar o crime. “Essa cultura permissiva tem origem histórica. Os colonizadores portugueses vieram ao Brasil para explorar, em busca de lucro, com a idéia de se obter vantagem facilmente. O pensamento do ganho rápido a qualquer custo inibiu a cultura do trabalho no país”, defende. Porém, Caldas diz que a política não corrompe a pessoa. Para ele, o poder é a principal causa do problema. “Quanto maior o orçamento de uma instituição, maior é a probabilidade de haver corrupção. A pessoa tende a ser mais corrupta onde há mais recursos”, acredita. Caldas diz que a população, diante de tantos casos de corrupção, já tem a mentalidade de que tudo é possível e que todo mundo se dá bem com o esquema ilícito. “As pessoas têm a idéia de que os políticos são corruptos. No entanto, a maioria delas desconhece os órgãos responsáveis pelo combate ao crime. Elas não sabem quais são as instituições e muito menos o que fazem. Portanto, não têm noção de para quem recorrer. Isso reforça a impunidade”, afirma. Segundo Caldas, o aumento da corrupção traz o crescimento da impunidade, o que forma um ciclo vicioso.O professor ressalta que os prejuízos originados da corrupção geram ao país enormes perdas, tanto na área econômica quanto na social. “O ato ilegal faz com que o Produto Interno Bruto (PIB) sofra uma redução. A destruição da ética e da moral também desestimula os representantes da sociedade civil”. O pesquisador lembra que existe corrupção em todos os países. Entretanto, de acordo com ele, o problema no Brasil é como as autoridades lidam com o assunto. “Há uma certa inércia por parte do Estado. O país deveria ter órgãos autônomos, sem serem subordinados, por exemplo, aos ministérios. As entidades governamentais também deveriam ser mais transparentes. A imprensa, por sua vez, poderia ser mais atuante”, critica, lembrando que a Polícia Federal, apesar de não ser independente, está realizando bons trabalhos.
Leandro KleberDo Contas Abertas